Precipitação

Eu sou a chuva, prima-irmã da seca.
Eu sou a chuva, inconstante periódica.
Eu sou a chuva, leveza ameaçadora.
Eu sou a chuva, abundante preciosa.
Eu sou a chuva, turva esclarecedora.
Eu sou a chuva, esperança desesperada.
Eu sou a chuva, afogada sedenta.
Eu sou a morte, vida chuvosa.

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Solidão amava Carência que amava Frustração
que amava Raiva que amava Ostentação que amava Inveja
que não amava ninguém.
Solidão conectou-se ao Facebook, Carência postou no Instagram,
Frustração foi bloqueada no Whatsapp, Raiva desabafou no
Twitter,
Ostentação tirou um selfie e Inveja curtiu o Infortúnio do
Outro
que foi hackeado pela indiscrição.

O Gosto da Bala

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Não tinha nome, nascera abandonado nos braços torpes da Cracolândia. Tinha agora magros nove anos e aparência de seis por conta da desnutrição, cresceu cambaleante pelas incertezas que lhe tiraram a fome, ora jogadas ao lixo pelos transeuntes, ora da esperançosa dor oriunda das mãos daqueles que coabitavam as ruas do Centro de São Paulo. Sua maior dificuldade era dar nomes às coisas que via e que sentia. Largado de nascença também pelo som, não sabia para que serviam os gestos com a boca que todos trocavam entre si, menos com ele.

Seus grandes olhos pretos e inquietos eram fitados e consumidos pelo fogo que via crescer e pipocar na posse daqueles que se jogavam aos cantos noturnos das ruas, sentados em posição fetal, segurando uma colher amassada, um cachimbo ou uma lata de alumínio na altura do umbigo, sob a qual se queimava um espesso e sólido sangue branco, o cordão umbilical que permitia nascer antes da dor. Ficava extasiado, observando, imaginando que sua origem viesse dessa experiência. Tirava a sua primeira dose de marfim das mãos fechadas de um desses que já não sobrevivia, esquecido e nunca lembrado na boca de lobo a céu aberto da Cracolândia. Nesses momentos, uma dor oca que se misturava à fome escorria para um canto solitário do corpo, então a sua esqualidez era apenas sua e não precisava dividi-la com a agonia que o assaltava ininterruptamente. Sentia-se livre do peso da sobrevivência, como se tudo fizesse parte dele e tudo prescindisse de significado, bastava a existência que não compreendia.

Uma vez, novamente em confluência, escorado no viaduto do Chá, uma dessas ciganas, que ali tiram moedas das mãos de quem se estende em busca do conforto de acreditar no destino, jogou-lhe uma bala de hortelã. Assustou-se. O objeto lhe era estranho, não sabia para que servia. Como a cigana abria a boca compulsivamente e estendia a mão em direção à bala, por medo de apanhar, pegou-a e correu com as mãos cerradas. Já parado na Praça da Sé, sentou-se no meio-fio da rua. Olhou para a banca de jornal mais próxima e notou que o objeto estranho da cigana era idêntico aos que estavam amontoados num frasco. Passou o fim da tarde ali e nada, o punhado esverdeado desses pequeninos objetos permanecia como estava.

Apesar do calor do dia, a noite era fria e insone. Olhava inquieto para o objeto estranho a sua mão, queria mesmo era a pedra branca. Algo no seu corpo batia muito forte, convulsionava, de repente, escorriam lágrimas, muitas delas. Não sabia por que chorava, nem sequer o que era e até se assustava com isso, mas gostava do sabor que aquela água salgada tinha. Arrastava a ponta suja do dedo e as unhas pretas pelo rosto, puxando as lágrimas dos olhos à boca, estendia a língua até os cantos dos lábios, tocando as pontas dos dedos molhadas. Na madrugada da tristeza, o coração de mais um agoniado do Centro desistia de bater, caiu frio sobre o pavimento e da sua mão escapou o destino, rolando da mão do moribundo, outra pedrinha em direção aos pés do menino.

O dia já estava amanhecendo e o crack lhe consumia as horas e as entranhas. Recolheu o objeto da cigana e caminhou até a Praça da Sé para esperar em frente à banca de jornal, na esperança de descobrir para que servia aquilo. Sentou-se no vazio de um canto da rua. Dessa vez, o jornaleiro, no tédio do ócio a que o mundo digital o condenou, sacou do pote uma bala de hortelã, desempacotou e levou à boca, movimentando vagarosamente a mandíbula. Já sabia para quê. Era para pôr na boca. Rasgou com o dente a embalagem e jogou na boca a bala. Não entendia o que fazer em seguida, imitou o gesto do vendedor de jornais, num movimento macio do queixo. Naturalmente, o açúcar da bala derretia e espalhava-se pela língua, salivava pela primeira vez, tudo lhe assustava de início, porém aquilo era bom. Pela primeira vez, sentiu alguma doçura na vida, diluindo e esvaindo-se pela língua.

Era horário das pessoas comerem, começo da tarde. No restaurante ao lado, rodavam bichos dourados, enfileiradamente espetados, numa caixa de metal. Sabia que era de comer porque sempre viu as pessoas comerem, mastigando com voracidade. Ali sentado, com os sentidos aguçados pela bala, com a boca inundada pela sua primeira saliva, batia-lhe ao rosto, com certa dor, o cheiro do frango. Vinha rodopiando com o vento quente e lhe atingia o nariz. Imaginou-se comendo, sua língua se movimentava, pressionando a bala de hortelã sob o céu da boca, fechou os olhos para imaginar melhor, escorria o doce e misturava-se ao cheiro de fora. O sabor lhe penetrava as sensações e era apenas isso que seu corpo conseguia sentir agora.

A bala acabou rápido e a saliva secou. De novo o vazio. O desespero. Precisa novamente não doer mais, sentir apenas o sabor da saliva açucarada. O frango ainda rodava ali e agora o cheiro vinha como um soco na cara. Não queria mais o gosto das lágrimas, queria o sabor da saliva. Seu corpo se compeliu em direção ao amontoado de balas de hortelã, precisa de mais uma. Suas mãos foram trêmulas, segurou o pote do doce para abrir a tampa. Sua cabeça pendeu para o lado; um zumbido. De repente esbravejava o jornaleiro a sua frente, instintivamente seu corpo se afastou, sentiu medo. O jornaleiro avançou gritando. Suas pernas queriam correr e então disparou em fuga, sequer percebeu que o pote permanecia em seus braços. A raiva do jornaleiro estava rubra e os seus gritos alertavam um policial sentado à porta do restaurante, que comia frango, contaminando a sua refeição com o amargo da sociedade.

Corria pela rua, sentiu um impulso forte, um pulso fraco, algo que lhe cortava por dentro. Fraquejou. Suas pernas não queriam mais correr. Viu o horizonte subir rapidamente, caindo com o rosto ao encontro do asfalto. O pote saltou da sua mão e bateu forte na calçada, as balas de hortelã rolaram para todos os lados. Um metálico sabor, salgado e pesado, invadiu sua boca. Não era saliva, vinha transbordando, afogando a respiração. Era a sobrevivência com gosto de pólvora indo embora, escorrendo vermelha pelos lábios. Uma bala policialesca atravessou as costas dele, estilhaçou a sua vida dolorida.